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Sunday, October 31, 2010

O selo vale mais com ou sem carimbo?

PERGUNTA:
O selo vale mais com carimbo ou sem carimbo?

RESPOSTA:
Coleccionar selos novos ou usados é um longo tema de discussão entre filatelistas, desdobrando-se argumentos e contra-argumentos em muitas centenas de páginas de artigos sobre o assunto.
Com a consciência da sua existência, não é meu objectivo aproveitar esta pergunta para explanar toda essa problemática. Procurarei responder o mais directamente que me é possível à pergunta formulada.

"O selo vale mais com carimbo ou sem carimbo?"
"Vale mais" pode ter dois sentidos:

(1) traduz-se num preço maior no mercado;
(2) tem maior importância para a colecção.

Abordemos a pergunta nesses dois sentidos.

No mercado
O selo é comprado e vendido por um determinado preço. Este preço não reflecte as condições sociais que foram necessárias para a sua produção pois não é um bem como as batatas, o livro ou a consulta do médico. Pela sua natureza o selo é um recibo, isto é, um documento comprovativo de que foi pago um determinado montante à empresa que faz o transporte das cartas. Ao colocar-se esse recibo na correspondência prova-se que o trabalho de transporte e entrega já foi pago e que agora é a vez da empresa cumprir a sua obrigação. O carimbo que é colocado no selo é uma forma de inutilização desse recibo, impedindo ele ser usado novamente.

Em termos económicos a formação do preço do selo tem mais a ver com a formação da cotação das acções nas bolsas de valores do que com os preços nos mercados de bens materiais e serviços.

Assim sendo há que distinguir claramente a existência de dois mercados:
- o mercado primário - em que se relacionam a empresa de distribuição de correio e cada um de nós - e
- o mercado secundário - em que as peças filatélicas, falemos em selos para simplificar, são comprados e vendidos por empresas e particulares, sem qualquer intervenção da administração postal.

Quando vou a um balcão dos correios, seja na secção de "Filatelia" ou outra, e compro um selo, estou a actuar no mercado primário. Quando o guardo para colocar na minha colecção estou preparando-o para transaccionar futuramente no mercado secundário. Quando o vendo num leilão de selos ou troco-o com um amigo estou a actuar no mercado secundário.

A base do preço de transacção no mercado secundário é o que foi praticado no mercado primário, mas a sua influência é bastante diferente conforme um selo, num determinado momento, só pode ser adquirido no mercado secundário ou também no mercado primário.

Por outras palavras estamos perante situações diferentes se pretendo adquirir um selo de 1897, que obviamente já não pode ser comprado nos Correios, ou se tenciono comprar um selos de há três anos que se encontra nos comerciantes, mas também está disponível nos balcões dos Correios. No primeiro caso a influência do seu valor nominal, o valor que estava escrito no selo, é muito pequena, enquanto no segundo caso é muito grande.

Além do valor inicial do "recibo", que outros factores influenciam o preço dos selos no mercado secundário?

Essencialmente dois:

(a) A importância relativa da oferta e da procura.
(b) As influências institucionais, os usos e costumes.

Se a oferta de um determinado selo é maior, reconhecidamente maior, que a sua procura, o seu preço tende a diminuir. Se a oferta desse selo é reconhecidamente menor que a procura o seu preço tende a subir.

Porque a procura de selos novos é maior que a de selos usados há uma tendência para os selos novos terem um valor de mercado maior que os usados.

E o que se passa do lado da oferta? Para os selos de há trinta anos para trás a oferta de selos novos é provavelmente mais limitada que a de selos usados, embora algumas peças possam constituir excepção. De então para cá, sobretudo no período mais recente em que há a manifesta tendência para o selo não ser utilizado na correspondência, provavelmente é muito mais difícil encontrar selos usados que novos. No entanto os catálogos continuam a assinalar um valor francamente superior para os selos novos.

Aqui entra o segundo elemento influenciador do preço dos selos: as intervenções institucionais - no sentido sociológico de instituição -, os usos e costumes.

O hábito actual faz com que a grande maioria dos coleccionadores de selos preferem os selos novos, associando-lhe a ideia, falsa em muitas circunstâncias, de que são mais raros. A influência institucional mostra que os catálogos são fundamentais para a existência de coleccionadores (por exemplo, quando deixou de haver catálogos de inteiros postais estes passaram a ser muitíssimo menos importantes no coleccionismo) e que são uma referência insuperável no estabelecimento dos preços dos selos.

Provavelmente muitas vezes os catálogos são influenciados por regras pouco económicas (por exemplo, se uma empresa que edita um catálogo tem uma grande quantidade de um selo raro para vender, se obedecesse às regras de mercado tenderia a baixar a sua cotação; obedecendo à lucratividade e beneficiando de poder de monopólio, tende a aumentar a sua cotação) ou por práticas inadequadas (por exemplo, um selo que ainda está à venda na administração postal é colocado no catálogo por um preço em novo francamente superior ao seu valor nominal; e assim é porque é prática transaccionar-se com desconto sobre o valor de catálogo e porque a empresa tem de ter uma margem de lucro, embora - absurdo dos absurdos - muitas vezes os correios façam grandes descontos sobre o valor nominal, quando vendem os selos aos grandes distribuidores internacionais; sabia que pode comprar no estrangeiro selos recentemente emitidos em Portugal a preço mais baixo que nos balcões dos Correios?), mas comandam o valor de transacção. De facto a nível internacional há quatro grandes catálogos mundiais (Gibbons, Scott, Yvert et Tellier, Michel) e a nível nacional há um ou dois por país. Logo, um grande poder de monopólio.

Em síntese, no mercado secundário os selos novos têm preços mais elevados que os selos usados. Perfeitamente justificado em selos antigos, não o é tão claramente em selos recentes.

Nos catálogos referentes a Portugal, apenas uma série tem um valor mais alto em usado que em novo: "A Travessia do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral" de 1923.

Antes de terminar esta questão dois aspectos adicionais:
- Quando os selos estão em carta e esta circulou há um valor de mercado muito superior. Neste caso o conjunto, que engloba o selo usado, tem mais valor que o selo novo. Por exemplo, o selo de 5 reis de D. Maria II está cotado no YT por 2.250 € em novo, 700 € em usado e 3750 € em carta. Porquê? Pela raridade e também porque usos e costumes levaram a considerar que as cartas circuladas são peças muito importantes nas colecções.
- Quando se fala em selos carimbado pressupõe-se que as marcas postais resultam da circulação das cartas. Quando resultam do "favor" de porem um carimbo - sobre o selo ou numa carta - o seu valor é manifestamente menor.

No editorial da revista francesa Timbres Magazine de Maio de 2002 Gauthier Toulemonde trata de um assunto similar ao que temos estado aqui a tratar e considera que o valor dos selos carimbados deveria decomposto em três tipos:

a) "As obliterações da época perfeitamente visíveis realizadas durante o período de venda efectiva do selo. Pelo menos 40% da superfície do carimbo deve ser visível"
b) "As obliterações mudas (...) Pode-se juntar todas as obliterações cuja data não é evidenciada."
c) "As obliterações centradas que se inscrevem correctamente no formato do selo e cuja visibilidade é perfeita"

Na colecção
Para a colecção de cada um o interesse em ter um selo novo ou usado depende muito do tipo de colecção. Se a colecção é de marcofilia os carimbos é que têm interesse, e não os selos. Se é de história postal as cartas circuladas são a grande matéria-prima da colecção. Se é temática geralmente os selos são o principal mas um bom carimbo em carta circulada alusiva ao evento é uma peça de grande interesse.

Sobre este assunto aconselhamos a ler, entre outras coisas,

"A Explicitação dos Conhecimentos Filatélicos" de Jean-Claude Lafleur em (recomendado) Filatelia em Portugal opção Menu / Artigos ou Artigo (directamente)

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